Equador
De Miguel Sousa Tavares | Editora Cia. das Letras
Miguel Sousa Tavares é um autor que se consagra definitivamente a cada livro que lança. O livro “Equador” foi o primeiro livro a tornar-se um grande sucesso aqui no Brasil. Equador foi o fruto de uma longa maturação e investigação histórica que inspirou um romance fascinante vivido num período complexo da história portuguesa, no início do século XX e os últimos anos da Monarquia. É a revisitação histórica de um período crucial da história portuguesa (entre os anos de 1905-1908), coincidindo com a decadência da Monarquia, a alvorada da República, a grave crise política, social e econômica do Império Português Ultramarino, centrado, no que a este romance diz respeito, na exígua colônia de São Tomé e Príncipe. O romance pode ser definido como simplesmente excelente. E não sou eu apenas quem diz isso: são os seus próprios leitores. Vamos a ele.
Equador é a história de um homem, Luís Bernardo, descrito no começo do romance, no ano de 1905, através de um narrador onisciente como um homem de 37 anos, que trabalha no escritório de uma companhia de navegação em Lisboa que lhe foi herdada pelo pai e que de vez em quando tem um relacionamento amoroso baseados em “mini-séries”. Luís Bernardo é um amante das artes, da cultura e de belas mulheres. Graduado em direito em Coimbra dirige entediado as empresas que herdou do pai.
O seu interesse pela Questão Colonial, a fama de um bom conversador, as suas boas relações e sua fluência nos idioma inglês e francês, e membro de um clube, onde na maioria das vezes se defendem opiniões pragmáticas. Certa vez, ele chamou atenção através de dois artigos feitos por ele no jornal “Mundo” acerca da questão colonial. Nestes dois artigos, Luís Bernardo exigia uma política colonial moderna que atendesse ao comércio e a economia. A convite é chamado por El-Rei, D. Carlos a Vila Viçosa ao ser nomeado para o cargo de Governador Geral de São Tomé e Príncipe. Assim o narrador onisciente resume o perfil do protagonista.
Deste modo, assumindo o cargo de governador e a defesa da dignidade dos trabalhadores das roças, sairia honrosamente de um affair com uma mulher casada, porém não fazia idéia que este desafio o lançasse numa rede de conflitos e interesses com a Metrópole. Dotado de uma visão estratégica bem aguçada facilmente percebemos que as potências estrangeiras tentam, sob a capa de um “humanismo hipócrita”, eliminar a concorrência dos produtores portugueses de cacau, alegando o uso ilegal do trabalho escravo e incentivando o boicote à compra do cacau de São Tomé.
Sua missão era liderar a região mantida em um modelo de trabalho que oficialmente não era chamado de escravidão e atender às missões diplomáticas dignas de um chefe de Estado, como por exemplo, receber a visita em caráter de auditoria feita por um cônsul inglês, David e sua esposa Ann. Ele, político com uma imagem a reconstruir após uma missão mal sucedida na Índia, e ela uma loura que exalava sua libido pelos poros.
As ilhas de São Tomé e Príncipe foram cenário em que o romance trouxe à tona a discussão sobre a dominação portuguesa no território. A missão inglesa não era de caráter humanitário, mas econômico. Havia de fato, um tratado que exigia a extinção da exploração escrava humana na África pelo homem português, porque a ausência de custos em mão de obra escrava resultava no que os ingleses chamavam de concorrência desleal.
Na representação portuguesa havia uma contradição: Luís Bernardo era anti-escravista tendo inclusive – como já foi assinalado acima – publicado o seu ponto de vista na imprensa portuguesa; enquanto que é possível sugerir que o império português não se opunha (oficialmente) à exploração do homem.
Existe no romance e logo no seu início uma distância considerável entre o que se falava na dita Metrópole e o que se praticava nas colônias como visto em várias passagens do livro:
“- Se bem o que Vossa Majestade me disse, existe, de facto, uma forma de trabalho escravo em São Tomé. E o que se espera do novo Governador é que isso não seja visível aos olhos ingleses, de maneira a não se expor a represálias do nosso famigerado aliado. Mas, ao mesmo tempo, espera-se que nada de essencial seja mudado, de modo a não comprometer o funcionamento da economia local.
- Não, não é isso. Nós abolimos oficialmente a escravatura há muito tempo, e temos uma lei, datada de dois anos, que estabelece as regras para o trabalho contratado nas colônias e cujo regime não tem nada a ver com escravatura. Desejo que isto fique claro. Portugal não consente escravatura nas colônias. Isso é uma coisa; outra coisa é submetermo-nos ao que os ingleses, e não por razões primeiramente altruístas, querem achar escravatura e para que nós, não passa de trabalho recrutado, segundo hábitos locais, e que não têm necessariamente de coincidir com o que se faz na Europa. Ou alguém acredita, por exemplo, que um inglês trata seus criados na Índia como os trata na Inglaterra?”
O que isso quer dizer? O que está contido nesse diálogo acima? Simples. Portugal não escravizava os Africanos, apenas como poderemos dizer… Submetia-os a um regime de trabalho culturalmente aceito em seus territórios e não aceitos na Europa por não haver na cultura daquele continente modelo de trabalho semelhante. E como justificativa apelava-se mencionando os ingleses que agiam em seus territórios como, por exemplo, na Índia os mesmos meios que condenavam.
Ao se estabelecer em São Tomé e Príncipe devido a distância da Metropole evidenciam-se as transformações do protagonista em virtude das vicissitudes da realidade histórica na qual está inserido e que, aos poucos, vai percebendo com maior clareza. Mais tarde compreendeu que o seu sucesso dependia de sua capacidade discursiva, e não de ações em prol das mudanças concretas no sistema colonialista. O novo administrador deveria, assim, preparar a chegada do cônsul inglês desenvolvendo um trabalho de anuência dos colonos portugueses.
David Jamerson, o enviado inglês, chega ao arquipélago acompanhado de sua exuberante mulher Ann, e logo se estabelece uma fraterna amizade entre o trio, pois apesar de estarem em campos opostos, tinham em comum os mesmos princípios e uma aproximada formação cultural. Esse vínculo, no entanto, passa ser mal visto pelos lusitanos do arquipélago e pouco a pouco, Luis Bernardo vai se isolando politicamente. O clímax da situação se estabelece a partir da relação amorosa entre o governador e Ann: tornada pública gera o conflito que acaba por levar ao fracasso e o desfecho trágico do protagonista estabelecendo um paralelo com a morte da monarquia em 1908.
Um dos pontos mais fortes dessa obra é, precisamente, o percurso individual (no sentido interior) do personagem central, Luís Bernardo. Finalizo, sem nenhuma sombra de dúvida, afirmando que este romance é simplesmente espetacular.
Posted on 30/01/2012, in Romance Histórico and tagged Drama, Editora Cia. das Letras, Escravidão, Inglaterra, Miguel Sousa Tavares, Portugal. Bookmark the permalink. 9 comentários.





Oi,eu sou filha da Maria.
Adorei o blog sobre livros,não sei se minha mãe já te falou,mais eu sou apaixonada por livros de vários gêneros.Vou salvar o blog nos meus FAVORITOS para eu entrar sempre.
Mais pessoas assim como você que incentivam a leitura deviam existir no mundo.
Tchau e bjs Olívia
Querida Olivia
Agradeço suas palavras. Sinto-me honrado pelo que foi escrito por você. Sempre que quiseres por favor sinta-se em casa. Sua mãe é uma pessoa admirável tenho muito orgulho de ser amigo dela.
Em síntese, espero que aproveite o máximo os livros aqui postados.
Um super abraço
Luiz Guilherme
Querida Olivia Agradeço suas palavras. Sinto-me honrado pelo que foi escrito por você. Sempre que quiseres por favor sinta-se em casa. Sua mãe é uma pessoa admirável tenho muito orgulho de ser amigo dela. Em síntese, espero que aproveite o máximo os livros aqui postados.
Um super abraço, Luiz Guilherme.
Querida Olivia
Agradeço suas palavras. Sinto-me honrado pelo que foi escrito por você. Sempre que quiseres por favor sinta-se em casa. Sua mãe é uma pessoa admirável tenho muito orgulho de ser amigo dela. Em síntese, espero que aproveite o máximo os livros aqui postados.
Um super abraço, Luiz Guilherme.
Oi,
Minha mãe contou que você queria falar sobre livros para adolescentes,eu gosto de escritores como Meg Cabot,Nicholas Sparks e Thalita Rebouças,também gosto de livros da Editora Record.
Estou lendo agora um livro da Meg Cabot chamado Todo Garoto Tem,que conta sobre uma jornalista que quer se casar mais seus pais e os pais do namorado dela não aprovam pois eles tem religião diferentes e vão para a Itália se casar escondido e cada um dos dois leva seu melhor amigo,não terminei de ler mais estou gostando muito.
Bis Olivia
Tina, minha filha recomendou-me o blog. Com muito prazer estou entrando em contato com seu trabalho, Luiz Guilherme. Sou escritora e, como tal, o prazer é dobrado quando me deparo com um bom texto, com um bom trabalho de resenha. Encontrei os dois no blog! Ótimo autor,o MIguel de Souza Tavares. Excelente romance. Muito bem feita sua resenha. Parabéns e sucesso. Postei no meu Facebook. Abraços,
Angela Adnet
Angela
Que bom saber que és uma escritora. Estou esperando o dia para que você nos apresente o seu trbalho para que eu tenha o prazer em resenhá-lo.
Um super abraço
P.S. Parabéns pela filha maravilhosa e inteligente que você tem.
Um abraço
Luiz Guilherme de Beaurepaire
Oi Luiz,
Equador, a miniserie, transmitida pela TV Brasil me conduziu a busca na Internet do livro e, para minha surpresa, tive acesso as suas indicações, inclusive com resenhas das obras. Parabéns!!
Adoro ler, sobretudo, os clássicos e biografias. Dessa forma não há a menor possibilidade de deixar de consultar as suas dicas, resenhas…
Moro em SP, no entanto, qdo eu for ao Rio, certamente o procurarei, quero conhece-lo e parabeniza-lo pelo seu trabalho no universo dos livros, palavras…
Abs
Rosani
Agradeço suas palavras e também a sua confiança. Fique certa que sempre estou atento não só as novidades, mas aos clássicos. Miguel de Souza Tavares é um escritor de mão cheia. Equador para mim é simplesmente a compravação disso.
Trabalho na Livraria da Travessa no Rio de Janeiro, no shopping Leblon, portanto será um prazer recebe-la, ok?
Um grande abraço e uma boa semana para você.
Luiz Guilherme de Beaurepaire